Saturday, August 6, 2011

Alice - Parte 1

Início da tarde.
Lá fora, o dia estava quente e iluminado por uma luz amarela e ofuscante.
Ela tinha que sair de casa, tinha que se mexer, tinha que ir com ele visitar o pai que estava internado numa clínica psiquiátrica.
Sentia que qualquer movimento seria extremamente doloroso, abrir os olhos era, por si só, um sacrifício penoso demais.
No fundo do seu espírito fragmentado em pedaços desiguais sentia que a felicidade absoluta consistia em ficar ali, entre aquelas paredes frias e ameaçadoras, de olhos fechados, com uma música suave e dramática na cabeça, a suportar passivamente o facto de estar consciente.

Mas, levantou-se maquinalmente e seguiu-o.

Passaram o portão verde (de ferro trabalhado em desenhos sinistros) do hospital psiquiátrico, um edifício simpático e cor-de-rosa enfeitado de jardins interiores por onde deambulavam homens que falam sozinhos enquanto se babam e paraplégicos de pescoço torcido que cantam ladainhas intermináveis.

Ela treme enquanto passa a porta, sente que o corpo se transforma em gelatina e tem que travar uma batalha interna para poder dar os passos necessários. Passa por uma rapariga muito jovem com um ar completamente alienado. Começa a recear tristemente estar perante um espelho… O seu próprio olhar de coruja assustada com a luz do sol não deve ser muito diferente do que vê naquela rapariga.

Dá as desculpas habituais e consegue encontrar um banco, ao sol ladeado por um arbusto de um verde simpático e acolhedor. Deitou-se no banco, sentiu o sol na cara e fechou os olhos. Ficou ali sem pensar no que poderiam pensar, afinal estava rodeada de alienados. Sentiu-o um certo conforto em poder misturar-se com eles sem ser notada. Quanto tempo teria até ter que voltar a mexer-se? Até ter que o encarar novamente e segui-lo até ao novo inferno que a iria quebrar em pedaços ainda mais pequenos.

Aquele refúgio improvisado tornou-se quente e acolhedor. Os monstros verdes e cinzentos que se azafamavam na sua cabeça começaram a desaparecer devagar.

Adormeceu…

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