Tuesday, September 20, 2011

Carta Ficcionada - "Agora"

Ainda não tens nome. Talvez porque não goste de qualquer nome masculino ou feminino, talvez porque considere o nome extremamente redutor ou talvez porque tenha receio de te relacionar indirectamente com alguém, através de uma letra, um som ou uma ideia subconsciente.
Pensei durante algum tempo (não muito) se devia escrever-te assim. Se por um lado tinha vontade de o fazer, por outro tinha receio do que pudesse ser deduzido disso. Optei por ignorar o receio.

Tenho estado perto daquele lugar outra vez. Ainda não desci, mas tenho andado em círculos à beira do alçapão. Às vezes, o sentimento de vertigem é tão forte que aquela ânsia de me mandar lá para dentro parece que vai dominar a minha vontade fragmentada. Então, disfarço e arrasto-me para longe dali mais uma vez.

Às vezes penso que não devia resistir a isso e que cair de vez naquele sítio deve ser melhor que suportar a ameaça constante a surgir em todo o lado.
Na primeira vez que lá estive as coisas não correram assim tão mal. Tornei-me mais corajosa por não ter nada a perder. Agora tenho a sensação de que tenho muito a perder. Mas terei?

Voltei a ter pesadelos e a acordar pior que antes.

Sinto-me sufocada pela necessidade de ser aquilo que esperam de mim. Sinto o peso das convenções como uma neblina tóxica no ar.
No outro dia estive no local do costume e fiquei apenas a observar os outros. O ambiente que se respirava era opressivo e pequeno. Ali, cada pessoa era alguém cheio de rótulos e preconceitos. Imaginei o que seriam aquelas pessoas em outro lugar. Nada, não seriam absolutamente nada! Que saudades de não ser nada e com isso ter a possibilidade de ser tudo...
Que saudades de ser anónima e livre e corajosa e capaz de fazer o impossível.
Não sei porque tenho esta desconexão social e humana tão acentuada neste momento.

Chove tanto lá fora! Sinto-me feliz com a chuva e as trovoadas e o vento. Sempre senti. Gosto daquelas vagas de temporal que parecem varrer tudo.

Esta carta é tão diferente do que gostaria de ter escrito, é tão pouco bonita, coerente e limpa.

Espero que melhore.

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