Monday, September 12, 2011

Os outros

Como era de esperar, ontem, vários canais televisivos transmitiram horas de reportagens sobre o "11 de Setembro". O mesmo aconteceu com jornais, revistas e outros meios de comunicação.
Como não tenho muita paciência para estar sempre a ver a mesma coisa, não segui nada com muita atenção. No entanto, sempre fixei algumas coisas, aquelas que me causaram um maior espanto.
A primeira e principal questão que me surpreendeu e aborreceu um pouco foi o facto de não aparecer a informação que eu gostaria de receber: o porquê do "11 de Setembro" ou, não existindo uma resposta rápida ou segura, uma contextualização histórica e sociológica do que aconteceu.
Vi, em vez disso, imagens de homens árabes a comemorar a queda das torres com uma alegria doentia e uma mulher árabe e serena a dizer que lamentava os mortos mas ficava feliz com o acontecimento. Passaram também muitas histórias de quem perdeu a vida ou alguém próximo naquele dia.
Tudo isso é muito interessante mas o que eu gostava de saber é porque é que daqui a 20 anos um professor de história muçulmano vai ensinar a uma criança que o "11 de Setembro" foi um grande e feliz acontecimento enquanto um professor de história americano vai ensinar que foi uma tragédia. Nós (portugueses) também aprendemos que foi muito positivo o facto dos nossos "Reis Católicos" expulsarem os árabes até ao Algarve. E (bónus) ainda ficámos com conhecimentos importantes de matemática e outras matérias, dicas gastronómicas e nomes de localidades. Mais alguém se espanta com isto?!
Porque é que é tão trágico que 3000 pessoas favorecidas, de classe média e média alta e americanas tenham morrido numa guerra, quando já morreram muitos mais milhares de pobres (daqueles que não têm nem o que comer), de países menos desenvolvidos, sem que ninguém se importunasse muito? Eu não sei.
Se estamos em guerra, prefiro estar do lado ocidental que sempre é mais forte mas não tão convicto.
Nós lutamos por dinheiro e orgulho e poder, eles (os outros) lutam por coisas esquisitas e ultrapassadas como a religião. Será? Eu não sei, ninguém me diz e ainda não tive oportunidade ou vontade para o tentar saber "in loco". O facto é que ainda sinto medo quando vejo muçulmanos de turbante e barba a entrar no metro. Ainda sou muito ignorante para não ter medo.
Acho que este tipo de guerra é a repetição de algo menor em grande escala. A luta pelo poder e o sentido de propriedade do "animal homem". Nações lutam umas com as outras tal como vizinhos, colegas de trabalho, crentes em religiões diferentes, amigos, familiares, irmãos, amigos, etc.
Ainda ontem na estrada estavam dois carros parados (devem ter batido) e umas 7 pessoas a baterem umas nas outras. Até um miúdo (de 9 anos?!) estava a bater num homem com toda a convicção. Estava a tentar defender o pai e, tal como esperado, não hesitava nem se mostrava muito atrapalhado. Acho que sim. Estamos sempre a tentar defender o que é nosso. É instintivo.
Eu própria se pudesse agredia com uns violentos palavrões as raparigas histéricas que estão aqui ao lado (no avião) a gritar alegremente porque a comida acabou na vez delas e é preciso ir buscar mais. Às vezes sinto tanta raiva que fico assustada. E sinto que essa raiva, no momento certo e trabalhada de uma forma fria e calculista poderia gerar coisas muito más. Acho que é isso que certas pessoas fazem. Calculam uma forma de espalhar a raiva, de fabricar realidades.
A partir do 11 de Setembro começou a desenvolver-se um medo já fabricado: o medo dos muçulmanos. A América é boa a fabricar medos: fabricou o medo dos russos, o medo dos comunistas... o medo dos muçulmanos (já deve ter existido o medo dos chineses ou será que é agora que vai existir?).
Medo do medo.

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