Thursday, September 8, 2011

Porquê Comprar?

Estamos em crise e, como é habitual em momentos de crise, surgem insatisfações, colocam-se questões e tentam encontrar-se alternativas ao que correu mal.

As pessoas notam (agora) que não estão satisfeitas com o trabalho e com a vida que têm. Começam a perder o poder de compra e constatam que passam a maior parte do tempo a fazer algo que não apreciam de todo – trabalhar.

Creio não estar errada se deduzir que grande parte das pessoas não trabalha com prazer ou a fazer algo que lhes dê verdadeira satisfação. Em geral, trabalham para sobreviver e para se entreterem no pouco tempo livre que têm (outra forma de sobreviver?).

Eu acordo, trabalho, compro coisas para me divertir, compro serviços, viagens, cultura, carros, as últimas novidades tecnológicas, roupas, sapatos, e volto a trabalhar para comprar coisas. As pessoas fazem-no e fingem que isso as satisfaz. Chegada a crise, percebem que não podem comprar mais coisas e ficam infelizes.
O que fazer?

Eu acredito que tudo se tornaria mais leve com uma prática em desuso desde o tempo da Grécia Antiga (em que o trabalho era convenientemente deixado a cargo dos escravos): o pensamento crítico.

Se simplesmente exercitarmos o pensamento, talvez não fiquemos tão insatisfeitos com a miserável situação que se avizinha e, talvez até possamos encontrar soluções valiosas para o “problema” que nos ameaça como um monstro aterrador.

Porque é que precisamos de consumir? Porque é que precisamos de determinada roupa ou determinado carro? Como criámos essa necessidade?
Foi o capitalismo que nos fez assim. Certo. Mas porque é que temos que ser assim? Porque temos que nos inserir no grupo?

Eu posso escolher não me vestir como todos os outros, não andar de carro, não ter malas e sapatos caros, posso escolher não ver televisão, não ir a discotecas, não ir aos bares onde todos vão, não ir de férias para as Caraíbas.
E porque não escolho?
Porque estas escolhas me foram impostas.

No entanto não somos robôs frios e eficientes (infelizmente). Temos sentimentos e emoções que nos fazem procurar a aceitação dos outros e evitar a rejeição. É por isso que vamos aos sítios onde todos estão, vestimos o que todos acham bonito, adquirimos coisas que podem causar admiração e dizemos coisas que geram simpatia.

Uns homens inteligentes e práticos decidiram que iriam exercer a sua influência para criar vontades (Mad Men), para provocar desejos e levar as pessoas a adquirirem coisas como se não houvesse amanhã. Eles constroem sonhos e fazem com que os outros acreditem que aqueles eram os seus sonhos. Eles constroem as vontades alheias ainda antes dos seus detentores saberem que as têm. Uma camisola já não é algo que nos protege do frio. Uma camisola é um “objecto fetiche” que nos vai tornar melhores, mais bonitos, mais desejáveis, construir um pouco da nossa personalidade e mostrar aos outros quem somos e onde estamos.

E as pessoas, que naturalmente se inspiram umas às outras, agem como um exército de consumidores organizado e disciplinado.

Acredito que temos em nós o que nos pode destruir e também o que nos pode ajudar. Por um lado, temos as emoções que nos levam a buscar desesperadamente a aprovação do próximo e, por outro, temos uma capacidade de pensar que nos pode levar a discernir o que é real do que é fabricado.

O díficil é gerir e equilibrar os dois e fazer o que nos deixará mais felizes:

-Ir de fato de treino para o trabalho porque é mais confortável e ajuda-nos a trabalhar melhor;

-Sair à noite com os sapatos da bisavó que estão escondidos no armário porque os achamos bonitos, independentemente da opinião alheia;

-Uma rapariga dizer que não gosta de moda nem de culinária nem de crianças sem a considerarem uma aberração.

Isso teria mais valor do que agirmos como seres pré-formatados, tornar-nos-ia mais felizes, genuínos e muito mais interessantes.

0 comments: